6 bandas famosas de Salvador que são símbolo e orgulho de seus bairros

Sede do Ara Ketu, em Periperi, fica entre a praia e a antiga linha férrea

No Carnaval, peguei a contramão e, enquanto meio Brasil brotava em Salvador (mesmo sem a festa oficial), dei uma chegada em Minas. A mina agora mora lá, em Betim, onde foi estudar, e no recesso das aulas para o putetê, demos um pulo em Beagá, ali pertinho – 50 conto de uber.

Teve turistagem numas praças e biritagem na Savassi, onde a folia rolava numa nice, e não estranhei quase nada. Isso porque a trilha sonora era quase 100% baiana. Repertório antigo inclusive, do Araketu ao Harmonia, do Ilê Aiyê ao Olodum, do Psirico à Timbalada, todo mundo cantava junto, parecia um público importado da Bahia.

Naquele dia, tinha o plano de esticar para Santa Tereza, bairro onde a folia era ainda mais animada, e que eu já conhecia de outros carnavais. Num flash da 'TV Bahia' de lá, já dava pra perceber que a música baiana também predominava, só que nesse caso havia um quinhão de heresia artística. Isso porque Santa Tereza é o berço do que melhor já se produziu na música mineira (na geração pré-Bala Love, claro).

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Foi lá que nasceu Skank e Sepultura, e onde se reuniu, sob o comando de Milton Nascimento e Lô Borges, a galera do lendário Clube da Esquina, músicos locais que marcaram a história da MPB. E marcaram tanto que o grupo é um símbolo do bairro, com direito a um Bar do Museu do Clube da Esquina, ponto turístico de BH.

De volta a Salvador, lembrei que por aqui também há bandas que são verdadeiros símbolos e orgulhos dos bairros em que nasceram. Algumas, inclusive, com espaços semelhantes a museus, que podem ser visitados por qualquer pessoa.

Te convido, então, para um rolé por esses bairros, e por cantinhos dentro deles que ajudam a contar a história de algumas das bandas mais famosas da Bahia.

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Ilê Aiyê – Curuzu

Para contar a história de alguns desses locais, recorri a guias informais, como é o caso do poeta e radialista James Martins, nascido e crescido no Curuzu, que deu “dicas de uma experiência realmente condizente” com a história do bloco afro Ilê Aiyê. As indicações, claro, vão além de subir a Ladeira do Curuzu ou acompanhar, no sábado de Carnaval, o cortejo até o Plano Inclinado Liberdade-Calçada. “Antes de tudo, visite o Ilê Axé Jitolu, o terreiro onde o bloco nasceu, hoje liderado por Mãe Hildelice, filha de santo e de sangue de Mãe Hilda, a matriarca que abençoou a fundação do bloco. Se der sorte, coma uma cocadinha e chupe um geladinho de Dona Tonha, ali no pé da ladeira”, encaminha o poeta.

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Senzala do Barro Preto, sede do Ilê, onde ocorrem projetos voltados para descobrir talentos do bairro (Foto: Divulgação)

Já mais pra cima, James sugere uma chegada no Bar de Neném e, em seguida, ali pertinho, na Vila Braulino, 222, mais uma parada religiosa: o Vodun Zo, de Doté Hamilton, representante da nação Jêje Savalu. “E lá no fim de linha reverencie o busto de Apolônio de Jesus (co-fundador do Ilê) e conheça um pouco de sua trajetória no Memorial Popó, no número 39 da Rua Direta do Curuzu”, complementa o nosso guia informal. O gran finale pode ficar para a ida à Senzala do Barro Preto, sede do Mais Belo dos Belos, que foi inaugurada em novembro de 2003. “Rebentou, Ilê Aiyê Curuzu, passo de Angola ijexá”, vamos pro próximo passo, meu bem.

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Olodum – Pelourinho

Outro bloco afro que tem um bairro para chamar de seu é o Olodum, que levou até artistas mundialmente conhecidos para passear por lá. O roteiro informal indicado por Júnior Sento Sé, pesquisador da história do bloco e dono da página @acervo.olodum nas redes sociais, pode começar do começo: a Rua Santa Isabel, 11, onde o bloco foi fundado. De lá, suba a Rua das Laranjeiras e desça, à direita, na Gregório de Mattos (antiga Maciel de Baixo). Nesse corredor, você vai passar, primeiro, pela Casa do Olodum, onde pode conhecer a história do grupo e comprar um souvenir, e depois pelo Teatro Miguel Santana, onde a banda realizou os primeiros ensaios, há mais de quatro décadas. A parada seguinte é o Largo do Pelourinho, onde foram gravadas as principais cenas do clipe ‘They Don't Care About Us’, de Michael Jackson e Olodum.

É do largo, onde foram também realizadas edições históricas do Femadum, que os músicos descem andando, em direção à Escadaria do Passo (Pagador de Promessas). É o cenário do clipe de ‘Obvious Child’, fruto da parceria do grupo com Paul Simon.

“Há outros locais importantes para conhecer e compreender toda essa confraria negra que se construiu no Pelourinho, como é o caso do Restaurante de Alaíde do Feijão, que sempre foi um ponto de aglutinação do Movimento Negro e dos blocos afros, e do Negro’s Bar, de Albino Apolinário, que teve o primeiro Bar do Reggae, local essencial no processo de construção dessa negritude panafricana que permeou a cena do reggae e samba-reggae no Pelourinho. Ambos ajudaram a criar essa consciência do bairro como comunidade unida e, consequentemente, ajudaram a fortalecer o Olodum”, indica Sento Sé.

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Ara Ketu – Periperi

Do Centro Histórico, partimos para um dos extremos da cidade, a fim de conhecer as origens do Ara Ketu. Quem nos guia por essa viagem ao Subúrbio Ferroviário é Vera Lacerda, presidente do Ara Ketu. “O endereço que faz parte da história (do grupo) é a Rua Pedro Reis Gordilho, onde começaram os ensaios e onde hoje é o Instituto Ara Ketu”, apresenta a fundadora do projeto, em 1980, de onde surgiu a banda criada em 1987. “Quando criei o Ara Ketu éramos meu primo Augusto César (Lacerda), que era pai de santo de Portão, e meu marido e meus cunhados. O Ara Ketu foi criado com eles na casa da minha sogra, que morava em Periperi, onde hoje funciona a loja d’O Boticário, na Rua da antiga Feira de Periperi”, aponta Dona Vera. O clipe de 'Símbolo do Coração', de 2011, mostra algumas cenas do bairro.

Na sede do Instituto, que fica bem ao lado da linha do trem [atualmente em obras para virar o VLT] e da praia de Periperi (ver fotos abaixo), o visitante pode ter acesso a parte do acervo do Ara, incluindo relíquias da banda. Pode ainda ficar por dentro dos projetos sociais desenvolvidos já por lá. “A Praça da Revolução também é muito forte para o Ara Ketu, pois nos primeiros anos do Ara Ketu desfilávamos por lá, sempre na segunda do Carnaval”, indica a nossa guia.

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Harmonia do Samba – Capelinha de São Caetano

“Respeite a minha história, nascido e criado na Rua da Glória”, entoa Xanddy, vocalista do Harmonia do Samba, sem necessariamente estar falando de si mesmo. A referência é, mais especificamente, à origem da banda, na Capelinha de São Caetano, como conta a fundadora do primeiro fã-clube do Harmonia, Anisiamaria Cardeal, que conhece a turma desde antes do cantor assumir o comando-comando. “Na verdade, Xanddy morava na Formiga, com a mãe e a irmã”, diz ela, ao indicar o endereço original do amigo: Rua Professor Rapold Filho, em São Caetano. Trata-se de uma vila de casas, conhecida como Beco da Chiada, à qual se tem acesso por um portão, entre a Oversilk e a casa 31.

Anisiamaria, fundadora do primeiro fã-clube do Harmonia, com Xanddy e Carla Perez (Foto: Acervo pessoal)

Mas e a Rua da Glória? “Lá é onde morava a fundadora da banda, Dona Graça, com o filho Roque César”, baterista e também um dos fundadores do grupo. “Em 17 de agosto de 1993, Dona Graça deu uma bateria de aniversário a Roque César, que no mesmo dia chamou os amigos e formou a banda. Eles tocavam em cima de engradados de cerveja, e o primeiro show na Capelinha foi 50 centavos a entrada”, recorda Anisiamaria. Xanddy só entrou na banda em 1998.

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Psirico – Engenho Velho de Brotas

Banda que emplacou o bordão “Música do Carnavaaal!”, o Psirico, ironicamente, é fruto do São João. A explicação está no fato de o Engenho Velho de Brotas, bairro onde Márcio Victor e os integrantes da formação inicial da banda nasceram, ser uma das principais referências do tradicional samba junino. Nascido e criado na Rua Manoel Faustino, nº 6, o líder da trupe se reunia com vizinhos e colegas de escola para fazer um som e animar as quadrilhas de São João. A primeira vez que os parceiros tocaram por lá, inclusive, “foi no Festival de Picolé da nossa quadrilha junina Ratimbum”, como explica Márcio.

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Márcio Victor e amigos promovem samba junino do Engenho Velho, em 2019 (Foto: Divulgação)

Antes de fundar o Psirico, em 2002, o cantor e multi instrumentista já tinha rodado o mundo, mas começou pela própria aldeia: ainda menino, tocou no bloco afro Badauê, também do Engenho Velho, e com o qual sua família era bastante envolvida. Depois, ainda adolescente, acompanhou gente grande como Ivete Sangalo, Daniela Mercury e Caetano Veloso em grandes turnês. Mesmo após o sucesso do Psi, que fez o primeiro ensaio na sede da antiga produtora Caco de Telha, na Barra, isso não o afastou do Engenho Velho, onde até 2019, antes da pandemia, ainda promoveu um samba junino, num trio elétrico, pelas ruas do bairro.

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Timbalada – Candeal

Há cerca de três décadas, caminhar pela Rua Paulo Afonso, no Candeal Pequeno de Brotas, era uma missão difícil, especialmente em dias de chuva. É que o berço da Timbalada nem asfalto tinha, quando Carlinhos Brown, criado na Rua Santa Maria do Horto, inventou de realizar, aos domingos, um encontro de percussionistas para tocar timbal na vizinhança. Era verão de 1991, quando o Cacique do Candeal e sua tribo iniciaram um movimento que mudou a história do lugar, e também da música baiana.

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Carlinhos Brown no Candyall Ghetto Square (Foto: Arisson Marinho/Arquivo CORREIO)

“O batuque é uma chave que abre portais de realidades ancestrais históricas, filosóficas, linguísticas, de oralidades e culturas que nos formam”, filosofa aquele que fundou, na mesma rua humilde, encravada entre arranha-céus de um bairro rico, dois projetos de encher os olhos. No número 411 da Paulo Afonso, o Candyall Ghetto Square, quadra de ensaios da Timbalada e espaço cultural; e um pouco mais abaixo, no 295, a Associação Pracatum, projeto social que identifica o potencial criativo do bairro, e já formou mais de 2 mil músicos, incluindo novos integrantes da banda que faz sucesso ao redor do mundo.

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Foto: Divulgação

*O Aniversário de Salvador é um projeto do Jornal Correio com patrocínio do Hospital Cárdio Pulmonar, Wilson Sons, Salvador Bahia Airport e Unifacs, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador, FIEB e Sebrae, apoio de Suzano, Abaeté Aviação, Sotero, Shopping Center Lapa, Jotagê, AJL, Comdados.

Fonte: Correio 24hs

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