Figuras apaixonadas por Salvador declaram amor pela cidade

Clarindo Silva (Foto: Paula Fróes)

Encontrar alguns deles nas ruas de Salvador é um privilégio que não pode ser desperdiçado. É como se a cidade te desse uma chance de conhecer um pouco mais de sua história, suas mazelas e belezas de uma maneira única. Gerônimo, Lazzo, Clarindo Silva e Franciel é o quarteto que sabe falar desta capital, que completa 473 anos, de um jeito único, sem meias palavras e como toda aula de história e antropologia deveria ser.

Encontramos cada um deles nos seus respectivos habitats preferidos da capital e cada um falou de sua visão sobre esta Salvador que é mãe e madrasta, mas que nenhum filho abre mão. Com Lazzo Matumbi, a voz contra o racismo e injustiças sociais, nosso encontro foi onde ele se torna a própria arte, em cima do palco do cartão-postal e cultural, o Teatro Castro Alves. Clarindo, não poderia ser em outro lugar: Cantina da Lua, no Pelourinho. Gerônimo, na ponta de Humaitá, com o cheiro de mar e o visual da Baía de Todos-os-Santos. Com Franciel Cruz, o papo é no lugar que ele vira sereio: nas areias de Amaralina.

Confira ao lado a visão de cada um sobre esta cidade que completa 473 anos. Enquanto seu GPS não localiza estes patrimônios artísticos em algum canto de nossa cidade, contamos aqui um pouco do papo que o CORREIO teve com cada um deles sobre nossa capital. Segue o carro, Motô!

A aniversariante na visão de…

1. Lazzo Matumbi

Ele é a alegria da cidade, a cor da Bahia, mas também carrega na voz o peso da luta contra o racismo e os direitos humanos em plena cidade mais negra fora da África. Talvez seja por isso que falar de Salvador é uma mistura de emoções para esse cantor e compositor tão importante para nossa história. No palco principal do TCA, sua voz é como uma porrada na consciência social e ecoa em todo teatro. Até seu silêncio é uma mensagem. E nada de falar de uma Salvador apenas linda. É necessário também repensar a desigualdade que impera na capital.

“Alô, Salvador, acorde! Está mais que na hora de acordar. Se reconstrua. Se olhe no espelho. Se respeite e respeite os seus filhos. Precisamos preservar não apenas sua beleza, mas a humanidade desta cidade. Por que todos que chegam aqui querem ficar? Por que nós, nativos, não somos bem tratados para nos orgulharmos também? São 473 anos de desigualdade. Pode parar, basta! Se ligou na mensagem? Ok e axé”, diz Lazzo.

Ele também questiona a alcunha de Salvador ser a Cidade da Música. Para ele, dois fatores questionam tal fama. Quase como um canto de protesto, ele afirma que Salvador possui um déficit muito grande de locais culturais e, principalmente, teatros. O povo não consome cultura e os reais representantes da música soteropolitana, vindos do gueto, são boicotados. Mesmo assim, ele garante que a força não falta ao povo:

“Eu sempre digo que Salvador é uma boa madrasta e uma mãe mais ou menos. Salvador tem um detalhe importantíssimo que é a energia ancestral que carrego em mim. A que me mantém vivo, me faz forte para sair daqui levando nossa cultura, além de sempre lutar e cantar nossa terra”.

2. Gerônimo

É difícil saber se Salvador é mãe dele ou Gerônimo é o pai da capital. Seu zelo pela aniversariante do dia é paternal, assim como suas broncas também. Passeando pela cidade com o cantor e compositor, é impressionante seu conhecimento sobre cada pedra colocada na cidade. Quando perguntado onde queria conversar, ele não titubeou: Ponta de Humaitá. Lá, enquanto desejava feliz aniversário para sua terra, sempre parava para dar uma aula de história.

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Gerônimo (Foto: Nara Gentil)

“Tá vendo aquelas casas ali? Todas possuem porões com pedras enormes para a maré não invadir. Foi ali que os holandeses entraram na nossa terra e o pau quebrou”, conta. A primeira coisa sobre Salvador que lhe vem à cabeça é o mar. “Está gravando? Deixa o som do mar mesmo. Se não tiver o som do mar, é mentira”, afirma, enquanto declara seu amor pela cidade.

Porém, alerta: “Salvador tem a sua história. É dolorida, sofrida, humilhada, mas de resistência e com a autoestima elevada. Se recusa a se entregar. Esta cidade, acima de tudo, é D’Oxum”. Tudo de Gerônimo termina no mar, até sua visão sobre a Cidade da Bahia, como ele costuma chamar Salvador. Gerônimo enxerga Salvador como alguém que avista a capital chegando do oceano, com diferentes lados e paisagens.

"Olhamos para um lado e vemos uma Cidade da Bahia linda, formosa. Do outro, uma cidade triste, de dificuldade. Também temos aquele lado da costa reagindo, tentando melhorar. Mas Salvador só evoluirá quando tivermos uma harmonia entre o povo e a política. Se eu fizesse um show agora, iria entupir de gente com seu isopor vendendo sua cerveja. Aí vêm os políticos e tomam, confiscam. Não podemos viver no século 21 com políticas do século 19”, garante Gerônimo, com rigor, mas com amor também. Após a conversa, o artista pegou o violão para homenagear a cidade. Contudo, pelo menos desta vez, não optou por D’Oxum.

“São Salvador, Bahia de São Salvador, a terra do branco mulato, a terra do preto doutor”, canta. “Nossa cidade é isto que Caymmi cantou”, completa.

3. Clarindo Silva

Logo cedo, antes mesmo de abrir o Cantina da Lua, Clarindo dá bom dia para as pessoas que passam pelo Terreiro de Jesus, se senta em uma das mesas do bar e lê todos os jornais impressos da capital. Ele não abre mão de todos os dias saber o que acontece na cidade, das mazelas às coisas boas. Jornalista, historiador, guardião do Centro Histórico e agitador cultural, falar de Salvador, para ele, é a mesma coisa de falar da mãe. Quer saber de Salvador?

Sente na Cantina da Lua, seu restaurante e centro cultural, e troque dois dedos de prosa com Clarindo. É uma aula sobre a cidade. Munido de um terno branco e gravata bordada com flores azuis, sua primeira palavra sobre a cidade é gratidão. E, de presente, Clarindo lança hoje o livro ‘Conversa de Buzú’, com crônicas e histórias vivenciadas pelo próprio autor no transporte público da capital.

Clarindo ama a cidade, mas seu foco é na conservação do que ele chama de coração do Brasil, o Pelourinho. Para ele, o que falta a Salvador é uma maior conservação de sua história e lugares históricos. Menos modernidade, mais conservação.

“Esta jovem mulher de 473, minha querida Salvador, precisa de cuidados. Preservar sua história é um ato de amor neste aniversário. Costumo dizer: um povo que não preserva o passado, não vive o presente e jamais poderá construir um bom futuro. Tem gente que viaja 11 mil quilômetros para conhecer o Pelourinho, enquanto alguns soteropolitanos que moram na cidade não prestigiam o lugar. Nossa cidade precisa de mais reconhecimento dos próprios habitantes”, avisa Clarindo.

Para ele, o Pelô, local que ele lutou pela revitalização, pode voltar a ser o polo turístico e de moradia da capital. “Temos várias ruínas aqui. Ao invés de desmatar para construir casas populares, poderiam reformar estes casarões para o povo morar. Só pode ter conservação com vida”, completa.

Clarindo também está preparando um livro póstumo sobre sua vida em Salvador, que será publicado somente após sua morte. “Salvador também é a terra da confusão. Estou terminando um livro que fala sobre minhas aventuras desta terra. O nome será Caixa-Preta. Mas vai dar muito problema, só será publicado quando eu morrer.”

4. Franciel Cruz

A nova voz literária sobre a baianidade e seus contextos, Franciel é um soteropolitano da cidade de Irecê, de onde veio para cometer a primeira loucura: torcer pelo Vitória. Com PhD em chibanças e dança de rato, nas horas vagas é jornalista, escritor e está bem próximo de se tornar digital influencer, mesmo se recusando a ter um celular. Seu livro Ingresia, lançado em 2018, é um conjunto de crônicas que fala de Salvador (e outras histórias) de um jeito único, onde o próprio Franciel é o personagem.

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Franciel Cruz (Foto: Sora Maia)

É possível encontrar este escritor em Amaralina ou em algum buzú Sussuarana R2. Conversar com ele é ter a visão de uma cidade popular, fora da rota turística, mas tão bela quanto. Ele não leva apenas a literatura da capital pelo mundo, mas também seus costumes, os mais pitorescos possíveis. Em visita à França, ‘traserou’ até no metrô, sem pagar um real de transporte público.

Sobre a cidade, Franciel utiliza uma frase de Gerônimo para falar de Salvador. “Nada a pedir, só agradecer. Mais do que pedir ou agradecer, nós temos que viver esta cidade dentro da complexidade dela. É uma cidade lambuzada de dendê, alegrias e exclusões. Se você não consegue enfrentar esta cidade, é melhor vivenciá-la”, diz. Assim como a maioria dos baianos, o que deixa Franciel atracado a esta cidade é o barulho e o cheiro do mar. “O cheiro de Salvador e os sons não mudam. É a cidade dos sentidos, uma modulação marítima. Parece que ainda falamos em Iorubá”, completa.

Talvez seja por isso que ele está em todo canto. Para Franciel, a cidade é o cotidiano, é o banho de mar, mas também é pegar o buzú ou qualquer outra experiência que a cidade proporcione. “O ônibus é um grande centro cultural, mas gosto de tudo, desde esperar do ônibus até ouvir o diálogo entre o cobrador e o motorista. É uma experiência única”, lembra. Para Salvador, ele tem um conselho. “Minha comadre, pelo amor de Deus, baixe sua bola. Eu sei que você está bem na fita, você é bonita pra cacete, mas não exagere, não. Vá devagar com seus filhos.”

O Aniversário de Salvador é um projeto do Jornal Correio com patrocínio do Hospital Cárdio Pulmonar, Wilson Sons, Salvador Bahia Airport e Unifacs, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador, FIEB e Sebrae, apoio de Suzano, Abaeté Aviação, Sotero, Shopping Center Lapa, Jotagê, AJL, Comdados.

Fonte: Correio 24hs

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