Líderes do BDM davam ordens dentro de prisão em Mata Escura; dupla foi transferida

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De dentro para fora. Segundo a Polícia Federal (PF), era essa a lógica das ordens que regiam as ações da organização criminosa conhecida como Bonde do Maluco (BDM). A facção tem inúmeros integrantes, mas dois dos seus líderes principais ordenavam crimes de dentro da Penitenciária Lemos Brito, localizada no Completo de Mata Escura.

As ordens eram executadas não só na Bahia, mas também em São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná e Santa Catarina. Todos esses estados foram alvo da operação Tarja Preta, da Polícia Federal, que cumpriu 35 mandados de prisão e 46 de busca e apreensão nesta quinta-feira (24).

As determinações de prisão e de busca foram emitidas pelo Juízo da Vara dos Feitos Relativos a Delitos Praticados por Organização Criminosa da Comarca de Salvador. A Justiça também determinou a apreensão e o sequestro de diversos bens móveis e imóveis pertencentes aos integrantes da facção, bem como o bloqueio de 40 contas bancárias por eles usadas.

Na ação em Salvador, entre os imóveis onde as equipes da Polícia Federal fizeram buscas está um flat de luxo localizado na praia de Jardim de Alah, na orla atlântica da cidade. Os agentes deixaram o local com dois malotes.

Núcleo principal

Delegado da Polícia Federal à frente da operação, Alexsander Castro de Oliveira deu detalhes de como a organização atuava com seu núcleo principal em Mata Escura. "O BDM se organiza dentro dos presídios, com dois líderes na Mata Escura. Estes, que não podem ter nomes revelados, se articulavam e comandavam de lá. Uma organização criminosa clássica, responsável por diversos crimes violentos", afirma Oliveira.

Os dois líderes da BDM deixaram o complexo de Mata Escura ainda na manhã desta quinta (24). De acordo com a polícia, o destino dos dois são penitenciárias federais. Eles foram transportados em aeronave pertencente à própria Polícia Federal.

A transferência foi necessária porque, no presídio em que os líderes estavam até então, foram detectadas falhas no controle de comunicação que facilitava a transmissão de ordens para integrantes fora do regime prisional.

Na Bahia, a operação Tarja Preta aconteceu em quatro presídios e passou pelas cidades de Salvador, Lauro de Freitas, Simões Filho, Catu, Gandu, Irecê e Teixeira de Freitas. Tudo para limitar ao máximo as ações da organização, que é responsável por diversos crimes violentos.

De acordo com a PF, os mandados foram cumpridos em quatro presídios porque oito alvos já estavam presos. Entre os principais crimes dos investigados estão o tráfico de armas e drogas, a prática de organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Sobre o último, Alexsander Castro de Oliveira falou como os criminosos agiam para 'lavar o dinheiro' do BDM. "Através de contas de terceiros, que não têm participação confirmada nesse esquema, eles movimentavam os valores ilícitos. Dinheiro que vinha do tráfico e também da mensalidade que era depositada pelos integrantes para a organização".

Ainda segundo o delegado, a organização era bem estruturada, contava com uma divisão de tarefas e pode ser responsável por mais de 10 homicídios nos últimos anos. "Ainda não foram investigados, mas temos notícia de homicídios que vão ter o material coletado e investigado em parceria com a Polícia Civil para que exista processo de investigação. São cerca de 12 homicídios", relata Oliveira.

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Alexsander Castro de Oliveira é delegado da Polícia Federal

(Foto: Wendel de Novais/CORREIO)

A operação

A operação Tarja Preta está sendo conduzida desde o início de 2020, quando o principal líder do BDM foi preso. A partir disso, para a polícia, toda estrutura como cadeia de comando, divisão de tarefas e os integrantes em outras unidades ficou nítida. É neste momento que o acompanhamento mais próximo das atividades do grupo pelas autoridades começa a acontecer.

O estado da Bahia, por conta das disputas entre facções rivais, é um dos pontos mais fortes que motivaram uma ação da PF para lidar com o crime organizado. "Em 2018, essa coordenação a qual que faço parte na polícia foi criada em decorrência de uma guerra que se alastrou por todo o país. Por isso, foram criados grupos sensíveis de investigação. Um deles na Bahia, que tem índices altíssimos quando o assunto é violência", completa o delegado Oliveira.

Por três anos consecutivos, a Bahia tem ocupado o primeiro lugar no ranking nacional de mortes violentas (5.099 em 2019; 5.276 em 2020; e 5.099 em 2021). O trabalho integrado deflagrado pelos órgãos de segurança pública tem como objetivo atenuar esses dados.

A operação Tarja Preta contou com o auxílio da Polícia Militar, Polícia Civil e Secretaria de Administração Penitenciária. O Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas do Ministério Público. Exército, DEPEN, BOPE/PM/MS e PM/GO também apoiaram as ações nos estados.

Expansão para fora da Bahia

A facção BDM é uma organização que nasceu em território baiano. Mais especificamente no Complexo Penitenciário da Mata Escura, em 2015. De lá para cá, houve uma sucessão de líderes com a morte de alguns integrantes e um crescimento da organização, que extrapolou as fronteiras da Bahia.

"Já havia um membro em Minas Gerais, um outro foi preso em Goiás, já tem uma conexão direta com o Mato Grosso do Sul, fora os outros estados. Essa presença é um indicativo de uma expansão que não fica só no Nordeste, mas para todo Brasil", afirma Alexsander Castro de Oliveira, ressaltando que o movimento faz parte de uma estratégia de associação.

Quando descreve o caminho que fez o BDM crescer, o delegado cita a parceria com outra organização como fundamental no processo. Para a polícia, a presença do BDM nas regiões sudeste, centro-oeste e sul só acontece por conta da guerra com o Comando da Paz (CP), e o apoio de outras organizações do restante do país.

*Com a orientação da subchefe de reportagem Monique Lôbo

Fonte: Correio 24hs

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