Mulheres do Futuro: confira a entrevista com Angeluci Figueiredo

Angeluci Figueiredo

Angeluci Figueiredo nasceu em Amargosa, no Interior baiano, e veio adolescente para Salvador estudar. Enquanto cursava Filosofia, despertou para a profissão que adotou por muitos anos: a de fotógrafa. Trabalhou em diversos lugares, como o Governo do Estado e o jornal CORREIO, até que, em uma reportagem sobre gastronomia à beira-mar, teve a ideia de apostar em uma paixão que carrega desde cedo: o fogão.

Sem dinheiro para grandes investimentos, vendeu um terreno que possuía e comprou uma casa na Ilha da Maré, onde abriu a primeira versão do Restaurante Preta, em 2015. O mobiliário foi garimpado de amigos que estavam reformando suas casas e que gostariam de se desfazer de algumas peças. Outros itens, como barcos usados como decoração, foram resgatados abandonados na rua e reciclados. Desde 2018, o lugar funciona na Ilha dos Frades, onde Angeluci comanda um time de 25 pessoas, entre o restaurante e a Pretoca, pousada que funciona em paralelo.

Em entrevista ao CORREIO para o projeto Mulheres do Futuro, a empreendedora conta sua história.

Você morava em Amargosa e chegou em Salvador com 16 anos para fazer faculdade. Com foi para você dar este passo tão nova?
Sair de Amargosa foi libertário. Eu morava numa casa com três irmãs e um irmão e minha mãe era altamente autoritária. O que eu mais queria na vida era sair e não ser dependente dela. Aí vim para Salvador trabalhar em uma loja de material fotográfico. Foi quando começou minha paixão pela fotografia. Estudei, fiz Filosofia, e depois fui fazer Gastronomia. Mas te digo, eu sou de ciclos. Eu fecho um ciclo e começo outro, e outro. Sempre quero um novo, eu gosto de desafios, é isso que me move.

Você atuou em setores do mercado de trabalho classificados como masculinos. Foi um desafio?
Eu sei que existe isso, mas nunca pensei por este lado. Nunca tive nenhum problema nisso, em transitar em um universo que era mais masculino. Eu tenho uma força que sempre me pergunto de onde vem porque para uma coisa me abater, só sendo fofoca, pessoas invejosas. É só isso que me abate.

Eu queria que você contasse a história do Preta, o restaurante que você comanda desde 2015.
Eu fui fazer uma pauta sobre “gastronomia à beira-mar”. Rodei a Baía de Todos-os-Santos e vi que não tinha nenhum lugar bonitinho, agradável, para almoçar, mas tinha público, que saía da Bahia Marina, do Yacht Clube e da Marina de Aratu. Eu ouvi minha voz interior, vendi um terreno, comprei uma casa na Ilha de Maré e montei o restaurante. Sem dinheiro para o mobiliário, tive a ideia de usar móveis descartados, louças sem conexão. E o Preta foi construído com fragmentos.

E o público apareceu de imediato?
Nos primeiros dois meses não deu ninguém. Toda vez que tocava Pablo, aquela música ‘Chore não, bebê, chore não, bebê’, parecia que tinha sido feita para mim porque eu só chorava. Mas depois o restaurante ‘pegou’. Ficou no gostinho das pessoas. E era uma comida simples, eu só queria um lugar aconchegante, onde as pessoas chegassem, tomassem um suco de fruta natural, comesse uma coisinha, assim, mais tranquila, sentasse numa mesa de madeira – porque eu odeio plástico – e foi isso.

Na sua equipe, você deu oportunidade para muitas mulheres que procuravam uma forma de se manter e mudar suas vidas e sempre se envolvia nas histórias delas. Fale sobre isso.
Eu sempre gostei de trabalhar com mulheres. Acho que elas têm algo fora da curva, resolvem as coisas, sempre têm uma saída para qualquer dificuldade. Parece que pensam de forma macro. Gosto desse universo totalmente feminino e você ajudar outras mulheres a se inspirar, a também correr atrás de seus sonhos, é gratificante.

Por que o restaurante saiu da Ilha de Maré e foi para a Ilha dos Frades?
Eu migrei para a Ilha dos Frades em 2018. Recebi esse convite da Fundação Baía Viva e montei o restaurante lá. Trabalho com pessoas das localidades. A maioria, mulheres.

É uma realidade dura ter uma restaurante em uma ilha, mas ao mesmo tempo é algo inspirador. Até porque, além do trabalho com as funcionárias, você sempre incentivou a produção local das mulheres da região.
No restaurante, você pode ver da decoração às coisinhas, que eu trabalho com o que as pessoas do meu entorno fazem, sempre estou incentivando. Então, os tapetes que uso no chão do restaurante são de uma crocheteira da Ilha de Maré; os doces de banana vêm de lá também. Sobre a realidade dura, eu vou te dizer que quando estou na minha ação total não consigo dizer 'eu sou mulher’ ou ‘eu sou homem’. Eu acho que sou feminino e masculino, tudo em um. Nunca pensei: ‘não vou fazer isso porque sou mulher’. Em nenhum momento ser mulher me impediu de fazer algo. Eu me sinto segura de mim mesma e assim eu vou. Eu sou uma ‘mulher-cebola’, de várias camadas.

Você falou da ‘mulher-cebola’ no Dia Internacional da Mulher e eu vi que muita gente se identificou com essa necessidade de ser vista como um indivíduo com diversas possibilidades, camadas, como uma cebola, e não como uma coisa só.
É, tem diversas camadas uma cebola. E às vezes a cebola não é gostosa, não é legal. Também tem outro lado. Depois, ela tempera, faz coisas deliciosas que você nem imagina. Faz gente chorar, faz tudo. É isso, são as camadas que nós temos, que vamos descascando. Entendeu? Eu sou essa mulher com múltiplas camadas.

Você já teve relatos de mulheres dizendo que você é o exemplo para elas?
Sempre vejo no Instagram as pessoas falando isso, mas eu acho que tem tantas outras mulheres inspiradoras.

O que você acha que falta e do que você se orgulha?
Tem uma coisa em mim que parece que nada basta. Sempre estou em busca de algo. Eu quero mais. Eu vou buscando. Eu nunca desacredito.

Tem alguma coisa que você não gosta e que queira mudar?
Eu quero aprender a dizer mais ‘não’ para os chatos e tóxicos. Eu acho que o mundo está um pouco doente e quero me blindar dessas pessoas.

Tem alguma mulher que te inspira?
São tantas que até para falar aqui, se eu for falar uma, a outra vai ficar triste, porque são muitas. E vou te dizer, o meu universo é mais composto de feminino do que de masculino.

Você acha que isso te alimenta?
As pessoas têm uma coisa de dizer que as mulheres são competitivas entre si. Pode até ser, mas eu não acho. Eu acho que ela te instiga até. Instiga você a sair da sua zona de conforto.

Qual é o ideal que você imagina para a sociedade?
Eu acho que as mulheres têm que se impor mais, se mostrar mais, e botar o peito para fora. Porque tem que gritar.

Qual a sua mensagem de inspiração para outras mulheres empreendedoras?
Que elas sempre ouçam a sua escuta interior. Às vezes, empreender não é fácil. O segredo é não romantizar as coisas e acreditar no seu sonho.

Mulheres do Futuro
Este conteúdo integra o projeto Mulheres do Futuro, uma realização do jornal Correio com o apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador e da FIEB. Confira nesta sexta-feira (25), a entrevista com a gerente executiva de Educação e Cultura do SESI Bahia, Clessia Lobo. Além da versão impressa e digital, os conteúdos poderão ser conferidos em vídeos publicados no perfil do jornal no Instagram.

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Fonte: Correio 24hs

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