Mulheres do Futuro: confira a entrevista com Clessia Lobo 

Clessia Lobo

Gerente executiva de Educação e Cultura do SESI Bahia, Clessia Lobo tinha 17 anos quando traçou seu projeto de vida: cursar faculdade e só casar e ter filhos depois da independência financeira e mestrado. Estudante de escola pública a vida toda, se manteve focada em seus objetivos, mesmo diante dos obstáculos. Estudava em módulos emprestados de colegas enquanto atuava como recepcionista de uma construtora e já começou a ensinar assim que entrou no curso de Pedagogia na UFBA. Com especialização em Neuropsicologia, Gestão Educacional, Educação de Jovens e Adultos e mestre em Educação, teve como um dos maiores desafios da sua trajetória profissional a coordenação de projeto educacional de robótica de uma empresa de São Paulo com atuação na Bahia superando preconceitos por ser pedagoga e nordestina.

A convite do Jornal CORREIO, neste mês dedicado às mulheres, Clessia Lobo conta sua história e compartilha seu aprendizado.

Como você conseguiu driblar as adversidades para conseguir realizar seus planos?
Desde muito cedo, vindo de família simples, percebi que, se quisesse conquistar os meus sonhos – e eu já sonhava muito –, teria que seguir pelo viés da educação e dos estudos. Entrei em espaços que foram de muita luta, como a universidade pública. Ainda me preparando para o vestibular, sofri assédio no trabalho. Ouvi do meu chefe: "como mulher, para crescer na empresa, você não precisa estudar". Aquilo foi marcante para mim, e mais do que nunca, serviu como um empurrão. Em vez de ser uma crença limitante, serviu como um empurrão. Depois da faculdade, sabia que continuar estudante era outra condição para ser empregável. Como mulher, eu tinha que mostrar as capacidades que eu tinha e alcançar novas, então fui emendando percurso formativo, conciliando com a educação, a vida de estudante e a vida de profissional. E desde lá, eu não parei.

Você começou a ensinar assim que entrou no curso de Pedagogia da UFBA, mas seguiu estudando. Fale sobre o papel que a educação ocupa em suas conquistas.
Continuar estudando dentro da área de educação depois do curso de Pedagogia era importante para galgar os espaços que eu precisava para as mudanças que queria fazer. Foi assim até que, quando terminei o mestrado, na banca, minha professora me disse: ‘Ficou aqui um gostinho de quero mais, você tem uma questão interessante para já engatar um doutorado’, e eu respondi, ‘Não, agora eu vou para outras dimensões que também me realizam e que estão no meu plano, no meu projeto de vida’. Eu queria casar e ter filhos e já estava na hora. Defendi o mestrado e, 7 meses depois, me casei. Tive meus filhos, que estão com 5 e 6 anos. Agora eu vou para o doutorado para entender as questões de avaliação de aprendizagem. Quero influenciar na melhoria dos indicadores educacionais do meu estado. Não me conformo, como educadora há mais de 25 anos, que a Bahia esteja com os piores indicadores educacionais do país. Então, vou continuar estudando para ajudar na transformação desses dados.

Ao longo desse tempo, você encontrou alunas que buscavam esse aconselhamento. O que você dizia a elas?
Foram muitas. E a reciprocidade era muito grande quando elas falavam da inspiração e da influência. Principalmente, quando elas sabiam, por exemplo, que na minha trajetória tinha a Educação Tecnológica, com a robótica. E como era isso há 16 anos? A mulher dentro da ciência e da tecnologia. Eu dizia para elas o que a gente já promove dentro da escola, “Os espaços de aprendizagem estão aqui e vocês vão ter que se desenvolver e aprender nesses espaços”, porque vocês vão conseguir conquistar aquilo que as capacidades de vocês vão dar conta. Porque vocês não vão pedir permissão, vocês vão pedir, no máximo, licença. Vocês vão ter que galgar espaços mostrando que, independente do gênero, a capacidade está aqui em vocês.

Por você ser mulher, sua presença nesse cargo tem representatividade. Como você vê isso?
Eu costumo dizer que tem uma razão, um lado racional e um lado emocional, que a gente tem o tempo todo que equilibrar. E por ser mulher, a expectativa do outro em relação ao meu cargo de liderança é como se sempre precisasse lidar mais com o lado emocional, com o lado mais ‘romântico’ de ser líder. E a gente vai rompendo para mostrar que usar a inteligência emocional não exclui a razão no sentido de metas, análise de desempenho, resultados diretos e objetivos, e tomada de decisões diretas e mais objetivas. Então, liderar pessoas é trazer os aspectos humanos na sua completude. E isso é para qualquer líder. Inclusive, líderes homens.

Qual a importância da educação para as próximas gerações de mulheres?
A educação é um viés de transformação, de sustentabilidade da sociedade como um todo. O mundo do trabalho mudou tanto que a capacidade de aprender precisa ser trabalhada o tempo inteiro porque as oportunidades não chegam de graça. É necessário ter foco. Dentro da educação, a gente tem que criar estratégias onde o jovem consiga experimentar o que é protagonizar, o que é decidir. A gente não pode ter um projeto político pedagógico que fale de autonomia, mas, dentro da escola, continuar escolhendo por ele, definindo seus espaços o tempo todo. Ela precisa ser dinâmica, organizada, mas, principalmente, ser um lugar de protagonismo dos jovens. E nós educadores ficaremos felizes em mediar. E que não sejam verdades estanques que o professor está dizendo ali, mas sim, verdades atuais. Que eles vão perceber pela ciência, pelo processo tecnológico, pelo processo de aprender, que o mundo muda. E, se a gente conseguir protagonizar a mudança, ela pode ser melhor.

Mulheres do Futuro
Este conteúdo integra o projeto Mulheres do Futuro, uma realização do jornal Correio com o apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador e da FIEB. Confira a entrevista com Clessia Lobo na íntegra pelo Instagram @correio24horas. Lá também está disponível o papo que tivemos com a empresária Angeluci Figueiredo, nossa primeira convidada.

Fonte: Correio 24hs

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