Roteiro histórico: olhares entre os fortes do mar da Baía

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Falar sobre a Cidade do Salvador é também abordar a importância do Atlântico e da Baía de Todos os Santos no desenvolvimento da urbe ao longo dos séculos. Oceano e baía ajudaram a moldar o que a capital se transformou e como seus contornos foram pincelados com gentes e construções. No texto de hoje faremos um breve roteiro da ponta Sul da atual cidade, com o forte e farol da Barra, seguindo os caminhos via mar até forte de Monte Serrat.

Em 29 de março de 1549 Tomé de Sousa, governador Geral, aporta na Vila Velha (atual Porto da Barra), com a missão de fundar a cidade e capital da América Portuguesa: a fortaleza do Salvador. Nessa época uma vastidão de terras ainda dominadas pelo verde – com fontes, rios em encontro com mar e pequenas cachoeiras que escorriam pela encosta – era o provável cenário que o Governador e comitiva avistaram. Apesar da carência de mais fontes detalhando o visual encontrado, algumas pistas e outros relatos apontam o passo a passo na saga em construir a cidade e a sanha em impor a ótica colonizadora contra os tupinambás.

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Com o sítio definido, em escolha que seguiu o padrão de cidade portuguesa fortificada, começou a construção da urbe aproveitando, em um primeiro momento, o que foi encontrado no lugar para tal empreitada e o que fora trazido de Portugal. Barro, madeira e pedras davam a base para construção das primeiras casas e prédios símbolos do governo. Aos poucos e precariamente Salvador cresceu entre muros, e depois fora deles, debruçada sobre a Baía de Todos os Santos.

Voltando para as águas a nossa primeira parada está localizada na Ponta do Padrão, caminho em direção ao eixo Sul de Salvador, onde está localizado o Forte de Santo de Antônio da Barra com seu farol. A secular construção é testemunha silenciosa de todas as transformações que ocorreram na Baía de Todos os Santos e os diversos naufrágios nas calmas e misteriosas águas da Baía. O conhecido farol foi sendo modificado com o passar do tempo, passando de uma planta quadrada, na época da colônia, para uma torre circular no século XIX, em contraste com o Edifício Oceania, de meados do século XX.

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Forte e farol de Santo Antônio da Barra. Arquivo Histórico do Exército. 1755.

Seguindo os caminhos defensivos da entrada da Baía encontra-se o Forte de Santa Maria em diálogo com o Porto da Barra e o Forte de São Diogo. Ambas construções ofereciam um aparato a mais para a defesa dessa região da cidade. A posição estratégica do Santa Maria oferece uma vista incrível para o Farol da Barra, que pode ser observada das ameias da parte traseira, e do outro lado contempla-se a praia com o forte ao lado e a Igreja de Santo Antônio da Barra. Foi na região da praia que os holandeses chegaram em 1624 com o objetivo de invadir Salvador.

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Cidade do Salvador, versão colorizada de John Ogilby, da ilustração Urbs Salvador, publicada em 1671, na obra de Arnoldus Montanus.

Poderíamos seguir nosso roteiro por terra, subindo a ladeira da Barra em direção a Vitória (parando no Restaurante Veleiro ou Egeu), mas faremos como os antigos viajantes e acolheremos os caminhos via mar. Passando pela região do fundo da Igreja da Vitória, que figura entre as igrejas mais antigas de Salvador, nos deparamos com o desbunde da vegetação do Corredor da Vitória, local que chamava a atenção de diversos viajantes no século XVIII e XIX. Atrás da muralha de prédios modernos presentes no “corredor” temos museus (Como o Costa Pinto e o MAB) e alguns belos renascentes de palacetes e mansões do século XIX e início do XX (Palacete das Artes).

Adentrando pelos caminhos terrestres encontra-se a Igreja da Graça que é, provavelmente, a mais antiga da Cidade, conforme aponta a historiografia tradicional, mas passou por inúmeras alterações, sendo o templo atual do século XVIII com fachada barroca. Foi lá, ou nas proximidades, que Catarina Paraguaçu pediu para ser construída a primitiva igreja.

Nossa próxima parada remete a uma Bahia colonial, marcada pela imponência dos sobrados e a força das atividades comerciais inseridas no contexto escravista. E assim surge o Solar do Unhão, um dos mais preciosos remanescentes de uma salvador do século XVIII. O solar já pertenceu a Gabriel Soares de Souza, a Pedro Unhão e a família Carvalho de Albuquerque, desempenhando funcionalidade de residência e atividades comerciais. Ao longo do século XIX e início do XX foi fábrica e trapiche.

Durante a Segunda Guerra Mundial foi utilizado pelos fuzileiros navais. Na década de 40 foi tombado pelo IPHAN. Sob posse do Estado da Bahia virou Museu de Arte Moderna. Na época a arquiteta Lina Bo Bardi comandou as obras. O MAM foi inaugurado na década de 60. O belíssimo Parque das Esculturas, que fica ao lado, foi inaugurado no final da década de 90.

Todo o entorno do MAM é cercado de atrativos e belezas. De um lado a famosa praia das pedrinhas e do outro a Gamboa de Baixo com o restaurante de Dona Suzana, e outros, que são retratos em colorido de uma Salvador acolhedora. Na mesma região o abandonado e belo Forte da Gamboa lembra que ali era mais um dos pontos de defesa no litoral baiano, em parceria com o forte de São Pedro, que fica ao lado da Praça do Campo Grande com o Teatro Castro Alves e o Hotel da Bahia.

Em seguida chegamos então na parte da velha Salvador, proximidades da região mais bela do frontispício e o sítio escolhido por Tomé de Souza para fundar a capital da América Portuguesa. Do mar avista-se o convento de Santa Tereza, atual Museu de Arte Sacra da UFBA, a Ladeira da Preguiça, local onde passou a família real e comitiva em 1808, e todo o entorno pontilhado de casarios e a velha encosta.

Na parte Baixa a Igreja da Conceição da Praia marca o signo e a imposição da fé católica logo no início da colonização. O templo foi o primeiro construído a mando de Tomé de Souza, em frente a região de praia. Dentro e fora o contraste entre a pedra de lioz, e as talhas internas dos altares, evidenciam o requinte e a riqueza presente no lugar. No século XVIII foi erguida uma nova igreja, engolindo o antigo templo, literalmente importado de Portugal. Cada uma das pedras foram encaixadas como um “Lego” fazendo desse monumento um dos mais belos de Salvador. Nos fundos visualiza-se os arcos da Ladeira da Montanha e os resquícios de contenções na encosta do século XVIII e XIX.

Nos arredores é importante mencionar os aromas da culinária baiana representados nos restaurante Amado e Mistura Fina, afinal falar sobre a história de Salvador é também lembrar dos sabores e cheiros cheios de histórias e contribuições diversas que formaram a identidade do soteropolitano. É lembrar dos caminhos via mar onde os saveiros abasteceram a cidade, onde homens e mulheres costuraram a tessitura chamada Salvador.

Os olhares mais atentos perceberão que na parte Alta, na Praça Castro Alves, é o poeta que dita o ritmo do tempo na cidade, afinal em um lugar com tanta poesia só Castro Alves para reger o passar dos dias. Na região temos a confluência dos caminhos, ruas, ladeiras e becos do antigo centro cultural pulsante soteropolitano, principalmente nos séculos XIX e XX. As torres do Mosteiro de São Bento, findadas na segunda metade do século XIX, e sua imponente cúpula, debruça-se para o mar da Baía.

Na esquina o SULACAP, com o traçado suave e moderno, aponta para a praça que no passado era conhecida por ter o teatro São João (infelizmente demolido). Nas redondezas o Cine Metha Glauber Rocha, o belíssimo prédio do Jornal A Tarde, atual Hotel Fasano, e na rua Chile o torreão do Fera Palace Hotel nos lembra os tempos áureos do lugar sinalizando os novos ventos de bons projetos para o Centro Histórico de Salvador.
Pormenor do Panorama de Mulock. 1860. Brasiliana.
Voltando para o mar encontramos o forte São Marcelo, ou o umbigo da Bahia como lembrou o escritor Jorge Amado, oferecendo a melhor vista para o frontispício de Salvador. Construído em meados do século XVII se destaca pelo formato circular único no Brasil. Desse mesmo forte em 1912 o General Sotero de Menezes, em consonância com o governo do Presidente Marechal Hermes da Fonseca, autorizou o bombardeio da Cidade do Salvador. Os tiros de canhão destruíram prédios importantes atingindo e ocasionando um incêndio no Palácio do Governo (atual Rio Branco), que na época guardava as preciosidades da nossa Biblioteca Pública. Um ataque a Salvador e toda uma memória perdida com a destruição de milhares de documentos desde a época colonial.

Era do forte do mar que muitos fotógrafos na segunda metade do século XIX posicionavam seus daguerreotipos para fotografar a capital. E é desse mesmo forte que avistamos a outra extremidade com o Monte Serrat e a Igreja do Bonfim.

Em nossa frente o Elevador Lacerda, ousado e imponente desde 1873. Fruto do inovadorismo da família Lacerda foi o primeiro Elevador público do mundo e mais alto. Na década de 1930 passou por uma ampliação e reforma seguindo o estilo Art déco. Nas redondezas vale a pena contemplar os sobrados do século XIX e início do XX, verdadeiros personagens de alguns livros de Jorge Amado, sempre presentes nas fotografias de Pierre Verger e Voltaire Fraga ou nas pinceladas de Carybé. O Mercado Modelo, instalado na antiga Alfândega, é uma referência de produtos característicos da Bahia. A Cidade da Música e Casa do Carnaval (na cidade Alta) são atrativos repletos de colorido e axé.
Antigo Elevador Lacerda. Postal Mello & Filhos entre 1906 e 1912. Coleção Particular.
Seguindo para o bairro do Comércio, antiga região do Cais das Amarras, (atualmente passa a Avenida que homenageia Miguel Calmon) visualiza-se os edifícios modernos, construídos depois dos anos 60/70, que nem de perto lembram os marcantes prédios pombalinos marcos do poder de comerciantes na cidade. Ao longo dos séculos Salvador recebeu escravizados e escravizadas, imigrantes e viajantes. A região portuária sempre foi um local de chegadas e partidas, ponto de encontro de mundos, ideias e sotaques, um elo entre as atividades comerciais em um cenário de evidência e violências, refletindo visões diversas em contextos de pujança e explorações.

Olhares mais sensíveis perceberão que muito ainda resta, arruinado ou sem uso especifico, nas ruas adentro. Casas e prédios do século XIX e principalmente das primeiras décadas do século XX, seguindo o ecletismo afrancesado de uma Belle Époque Tropical. O Monumento a Batalha do Riachuelo e a Associação Comercial da Bahia, com o belo pelo painel de Portinari narrando a Chegada da Família Real na Bahia, são um dos atrativos da parte baixa. Olhando para o alto podemos admirar a torre da Santa casa da Misericórdia, com seu zigue-zague em azulejos, a Cruz Caída de Mario Cravo, no lugar da Antiga Sé da Bahia, o Palácio da Sé, Museu da Coelba, Plano Inclinado Gonçalves e a Catedral Basílica do Salvador, monumento da mais alta grandeza.

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Vista da Cidade do Salvador com a Associação Comercial e os prédios pombalinos. 1860. Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil. Coleção Brasiliana/ Fundação Estudar. Doação da Fundação Estudar, 2007.

Cidade Alta e baixa se unem por ladeiras, caminhos de resistência e de beleza negra saltitante entre a arquitetura portuguesa / soteropolitana, barroca e popular. O Centro Histórico de Salvador, bem mundial pela UNESCO, o Pelourinho (com a fundação Jorge Amado e a Igreja do Rosário dos Pretos) e Taboão, imortalizado por Jorge no livro Suor, lançado em 1934, o Passo com suas torres, a Casa das 7 Mortes, e o Carmo com as igrejas e os bistrôs são um dos lugares mais aconchegantes da cidade. Lá vale a pena passar no Antique Bistrô, Raiz, Bistrô das Artes e claro no Cafelier, de Paulo Vaz. Melhor, vale a pena passar em todos os lugares… na Cruz do Pascal, Casa Boqueirão, Tempo Arte Popular, Zanzibar, Poró e o recém-inaugurado Yolo, fechando com o Museu do Mar e o por do Sol ao lado do Forte do Além Camo.

Voltando para o Centro Histórico, especialmente no Terreiro de Jesus e adjacências, destacamos cada uma das lojinhas e restaurantes: Como o famoso Malassado, Mariposa (na antiga sede da Academia de Letras da Bahia), Ó Paí ó, Cuco Bistrô, Maria Mata Mouro, loja Apoena (com uma galeria incrível com arte indígena), Cubana e a incrível Sal da Terra (na Ladeira do Pelourinho), oferecem um pouquinho do que a Bahia tem.
Baiana. Voltaire Franga. Década de 1940.
Depois desse passeio adentrando rapidamente os caminhos da velha Salvador, voltemos para o mar. Mas antes tenho que recomendar algumas paradas no Di Janela, Ajeum da Diáspora, Casa de Tereza, Dona Mariquita, Casa Di Vina. Manga e no Restaurante Origem (nos demais caminhos soteropolitanos), e olha que tem muito mais. Novamente em águas da Baía deve-se admirar o porto da Cidade, hoje um quebra cabeças de engrenagens e containers, na frente da antiga região de cais e trapiches que escodem a Igreja Nossa Senhora do Pilar e Santa Luzia, com o belo cemitério em estilo Neoclássico. Por esses caminhos, em direção a Água de Meninos, todo um comércio diversificado chegava, mar e homens se uniam em uma relação única sendo levados por velas de embarcações rompendo o céu azul de Salvador. Na parte alta, Liberdade, Soledade e Lapinha (com os caminhos do 2 de Julho e a independência da Bahia/Brasil e o arruinado Solar Bandeira)

Em Água de Meninos, atual Feira de São Joaquim, admiremos o colorido da feira. Os cheiros e produtos advindos do recôncavo, juntamente com o axé da religiosidade que Odorico Tavares citou em seus textos. Na frente a Casa Pia de São Joaquim incrementa a paisagem. Em seguida a Calçada com a estação de trem, antiga Bahia and San Francisco Railway, a espera de uma devida atenção e restauro. E depois os caminhos para o Bonfim, passando pelo complexo religioso e hospitalar da nossa Irmã Dulce, inserido nos caminhos da Fé.

Por uma questão de recorte, sendo escolhidas as extremidades do Forte da Barra até Monte Serrat, em um trajeto marítimo defensivo na cidade do Salvador, terminaremos nosso roteiro com o Bonfim e redondezas. Mas tenho o dever de mencionar os encantos que só no Subúrbio poderemos encontrar – quem sabe em outro texto né. Belezas que estão na sua exuberância geográfica e paisagística, riqueza cultural histórica (ruínas da Fábrica São Brás, linha férrea e Acervo da Laje), gastronômica (Boca de Galinha, Pirão do Renato, Cabana do Camarão…) e muito mais com suas praias.

É simbólico terminar nosso passeio na região da Igreja do Bonfim, talvez um dos lugares mais icônicos da Bahia. Pois lá além de ser uma referência da fé católica é também um lugar de encontro de costumes, tradições imersas no candomblé e nas expressões únicas e híbridas nessa cidade tão encantadora. Depois de avistarmos a Igreja do Bonfim, coroada por suas torres douradas brilhando como um farol na Colina Sagrada, temos finalmente o forte de Monte Serrat (século XVII – XVIII), único em seus detalhes de onde olhamos o outro extremo da cidade. Na parte baixa uma igrejinha com um píer adicionam mais encantos em nossas paradas. Nos próximos meses faremos, dessa vez não só em texto, e sim de escuna, todo esse passeio em uma aula de campo ainda a ser marcada pelo instagram @rafadantashistorat, como os antigos viajantes que passaram em Salvador. A aula será continuidade do curso do IGHB.
Colina Sagrada, Postal Typ. Joaquim Ribeiro & Cia. Guia Geográfico Salvador Bahia.
No século XVIII época da construção da Igreja do Bonfim (que passou por diversos aperfeiçoamentos no XIX) e início da tradição festiva, a região era muito diferente. Antigos registros visuais mostram um lugar pouco habitado que só no decorrer do século XIX começa de fato se projetar na urbanidade traçada em direção aos caminhos ao eixo Sul de Salvador. Uma verdadeira travessia que marcava esses trajetos, onde os caminhos via mar eram muito mais viáveis. E falando do mar que recomendamos, nessa parte final do nosso passeio, o restaurante Encantos da Maré, ao lado da Igreja do Bonfim.

Do mar avistamos não só Salvador, cidade de contrastes e costuras em traçado indefinido, olhamos também suas gentes em um vai e vem intenso, mas ainda com um pouco de poesia, não sabemos até quando. Nesse pequeno recorte através de uma tentativa de proteger a cidade com as fortificações ao longo dos séculos XVII / XVIII, podemos identificar alguns dos mais representativos atrativos da cidade, faltam outros tantos, mais aí será tema para outros textos. Um viva a Cidade do Salvador, ao som de Caymmi, e um viva a rica história de milênios de ocupação nessas terras abençoadas pela Baía e ainda com poesia.
Rafael Dantas é historiador, professor e artista plástico
O Aniversário de Salvador é um projeto do Jornal Correio com patrocínio do Hospital Cárdio Pulmonar, Wilson Sons, Salvador Bahia Airport e Unifacs, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador, FIEB e Sebrae, apoio de Suzano, Abaeté Aviação, Sotero, Shopping Center Lapa, Jotagê, AJL, Comdados.

Fonte: Correio 24hs

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