Três hospitais de Salvador registram infecções por bactérias super-resistentes

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Entre janeiro e março deste ano, casos de pacientes infectados por bactérias super resistentes foram registrados em três hospitais da capital baiana. Em abril, a Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab), emitiu uma nota técnica em que alertou para os riscos da disseminação do microrganismo enterococcus resistente ao antibiótico vancomicina em unidades hospitalares. A secretaria não informa quantas pessoas foram infectadas no total e nem quais foram os hospitais.

Sabe aquela velha história de que é importante tomar cuidados com o uso de antibióticos para que bactérias super potentes não sejam formadas no nosso organismo? É justamente isso que explica a cepa de enterococcus resistentes à vancomicina. As bactérias são capazes de burlar a eficácia deste antibiótico, o que implica na diminuição de opções de medicamentos para tratar infecções graves.

Em 2019, quatro unidades hospitalares também registraram infecções deste tipo em Salvador. A Sesab, no entanto, não informa quantos pacientes foram atingidos e nem quais foram as unidades de saúde. Infecções deste tipo não costumam acometer pessoas saudáveis e sim aquelas que já estão internadas em hospitais, de aocrdo com o infectologista Fábio Amorim.

Este tipo de bactéria tem grande potencial de disseminação em unidades de saúde porque apresenta resistência a remédios que tratam doenças causadas por micróbios em geral, como explica o infectologista Antônio Bandeira. “Essa resistência ao antibiótico aponta que a bactéria é frequentemente resistente a muitos antibióticos e esse [vancomicina] é um dos principais usados no tratamento. Além disso, o gene pode ser rapidamente transmitido para outras bactérias, o que pode gerar um surto em unidades hospitalares”, diz o médico.

O risco é maior para pacientes que já estejam internados com acessos hospitalares ou intubados, ou seja, que possuam a saúde debilitada antes da infecção. “Todo paciente dentro do hospital já está enfraquecido. Se essa bactéria ainda causar infecção hospitalar, como frequentemente causa, vai debilitar ainda mais quem já está fragilizado”, destaca Antônio Bandeira.

Os enterococcus podem ser responsáveis por infecções em diversas partes do corpo, tais como endocardite (que acomete as válvulas do coração), trato urinário e abdome. Por isso, são consideradas como bactérias “oportunistas”. “Muitas vezes a infecção se associa a colonização dos cateteres por bactérias, então pode haver uma infecção pela corrente sanguínea ou elas podem colonizar o cateter urinário e a pessoa ter uma infecção urinária grave, por exemplo", diz Bandeira.

Caso a infecção ocorra através do sangue, o quadro pode se agravar para sepse. Isso significa que a bactéria passa a estar presente em diversas partes do corpo, já que é transportada pela corrente sanguínea. O infectologista Fábio Amorim ressalta que como a bactéria é resistente ao seu principal tipo de tratamento, o antibiótico vancomicina, as opções ficam reduzidas.

“O risco é pelo fato do paciente estar infectado com um agente patogênico que pode levar a infecção nos mais diversos sítios. Tais como pele, pulmão, coração, rins e ossos e ainda ter restrição nas opções terapêuticas”, explica o médico. O tratamento mais restrito também pesa mais no bolso.

Outras opções de antibióticos que podem ser utilizados em casos de resistência à vancomicina são a daptomicina e a linezolida. Sendo que uma caixa deste último com 28 comprimidos pode chegar a custar R$6.700, de acordo com a plataforma Farmaindex. O site realiza pesquisas e compara diversos tipos de medicações e foi criado em março de 2020.

Cuidados

Os micro-organismos multirresistentes do tipo enterococcus foram considerados como alta prioridade para vigilância pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2017. Por isso, o alerta de infecções deste tipo é importante para que hospitais e unidades de saúde tomem medidas que possam evitar grandes surtos.

Entre as medidas indicadas pela Secretaria de Saúde do estado estão: o isolamento de pacientes infectados em quartos privativos, implementação de procedimentos padronizados de limpeza e desinfecção, manter equipamentos de uso exclusivo para pessoas infectadas e a realização de cultura de vigilância ativa para investigar possíveis surtos. A desinfecção de superfícies são importantes porque os e enterococcus podem sobreviver nesses locais por longos períodos.

Para as pessoas saudáveis que façam visitas a pessoas internadas, o infectologista Antônio Bandeira afirma que não existem critérios de proteção definidos. “Para as pessoas em nível individual, não há muita recomendação. Na verdade é algo mais referente à gestão hospitalar”, afirma. Apesar disso, a Sesab recomenda a lavagem correta das mãos sempre que possível.

Pandemia pode ter contribuído para a seleção

Longas internações causadas por conta de infecções do coronavírus durante a pandemia podem ter favorecido às bactérias a adquirirem resistência aos antibióticos, como explica a Sesab na nota técnica divulgada. Muitos pacientes que tiveram covid-19 precisaram ser internados em Unidades de Tratamento Intensivo (UTI) e utilizaram dispositivos invasivos, como intubação, ventilação mecânica e cateteres.

“Todos esses procedimentos propiciaram infecções bacterianas e o uso intensivo de antibióticos, o que pode ter favorecido a emergência desse tipo de cepa”, explica Antônio Bandeira. Além disso, a Secretaria de Saúde pontua “dificuldades para a implementação de medidas de prevenção e controle de infecções" nas unidades de saúde da Bahia podem ter contribuído para a aparição dos casos. Não há informações sobre pacientes infectados com enterococcus resistente ao antibiótico fora de Salvador.

“A pandemia da covid-19 criou condições que favorecem a disseminação de microrganismos resistentes aos antimicrobianos nos serviços de saúde: aumento no número e no tempo de hospitalização dos pacientes com covid-19; pacientes graves com uso prolongado de dispositivos invasivos e assistência intensiva; redução do número de profissionais de saúde e aumento da carga de trabalho”, diz a nota técnica.

*Com orientação da subchefe de reportagem Monique Lôbo.

Fonte: Correio 24hs

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